Mesmo sob ataque, universidades públicas seguem salvando o Brasil

Brasília-DF, segunda-feira, 25 de maio de 2026


Brasília, segunda-feira, 25 de maio de 2026 - 20:20

Mesmo sob ataque, universidades públicas seguem salvando o Brasil


Por: Marcos Verlaine*

Mesmo sufocadas por cortes, abandono orçamentário e campanhas sistemáticas de desmoralização, instituições públicas lideram algumas das descobertas científicas mais revolucionárias do País; da reversão da tetraplegia à vacina contra o crack.

Foto: Raquel Aviani/ UnB

Existe uma contradição brutal no Brasil contemporâneo: enquanto parte da elite política e econômica trata as universidades públicas como inimigas ideológicas, é justamente dentro dessas instituições que surgem algumas das descobertas científicas mais transformadoras do País.

São laboratórios públicos, pesquisadores bolsistas, estudantes precarizados e hospitais universitários sucateados que vêm produzindo avanços capazes de alterar radicalmente a vida de milhões de pessoas. Não graças ao Estado brasileiro, mas apesar desse.

Foi numa universidade pública que pesquisadores desenvolveram técnicas experimentais promissoras para recuperação de movimentos em pacientes tetraplégicos1. 

Foi numa universidade pública que cientistas criaram alternativas terapêuticas para evitar amputações em diabéticos2. E foi também numa instituição pública federal que nasceu a primeira vacina do mundo destinada a bloquear os efeitos da cocaína e do crack no cérebro3.

Tudo isso em meio a contingenciamentos, bolsas miseráveis, prédios deteriorados, fuga de cérebros e campanhas permanentes de criminalização ideológica da ciência.

A universidade pública brasileira talvez seja hoje o exemplo mais acabado de resistência civilizatória do País.


Extrema-direita odeia aquilo que não controla

Não é coincidência que as universidades tenham se tornado alvo prioritário e predatório da extrema-direita brasileira. O ataque não é apenas orçamentário; é cultural, político e simbólico.

Há anos consolidou-se uma máquina de propaganda destinada a apresentar universidades públicas como espaços de “doutrinação”, “balbúrdia” ou desperdício de dinheiro público. 

Professores passaram a ser tratados como inimigos internos. Cientistas foram ridicularizados. Pesquisadores tornaram-se alvos de campanhas digitais de intimidação.

O objetivo sempre foi claro: destruir a legitimidade social da produção científica independente.

Porque universidades públicas produzem exatamente aquilo que projetos autoritários mais temem: pensamento crítico, conhecimento autônomo e mobilidade social.

Quando um filho da classe trabalhadora entra numa universidade federal, não entra apenas numa sala de aula. Ele atravessa a fronteira histórica de toda sorte de exclusão.

E quando essa universidade produz ciência de ponta sem se submeter ao mercado financeiro, às big techs ou aos conglomerados privados da educação, essa rompe outra lógica ainda mais profunda: a da dependência estrutural do Brasil.


Ciência pública, lucro privado

O aspecto mais perverso dessa equação é que o País frequentemente celebra os resultados da ciência sem financiar adequadamente quem a produz.

A vacina contra o crack desenvolvida pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) mobilizou atenção internacional. Pesquisas de regeneração neural realizadas na USP (Universidade de São Paulo) projetaram cientistas brasileiros no cenário global. 

Tratamentos inovadores para complicações graves do diabetes surgem continuamente em hospitais universitários federais.

Mas os pesquisadores seguem submetidos a editais insuficientes, laboratórios deteriorados e salários comprimidos.

O Brasil quer o milagre científico sem investir em ciência.

Quer inovação sem universidade, em particular, as públicas.

Quer soberania tecnológica financiando banqueiros enquanto corta verbas de pesquisa.

Essa lógica não é apenas contraditória. É colonial.

Países centrais tratam universidades como infraestrutura estratégica de poder nacional. O Brasil, frequentemente, trata suas instituições científicas como despesa incômoda.

Universidades públicas sustentam o
que ainda resta de projeto nacional

As universidades públicas brasileiras não são apenas centros de ensino. São hospitais, centros de vacinação, polos tecnológicos, produtoras de vacinas, formuladoras de políticas públicas, centros de preservação ambiental e espaços de inclusão social.

Em muitas cidades do interior, a universidade federal ou estadual é a principal locomotiva econômica da região.

Durante a pandemia, foram essas instituições públicas de ensino superior que sequenciaram variantes, produziram respiradores, formularam estudos epidemiológicos e sustentaram parte decisiva da resposta sanitária nacional enquanto negacionistas sabotavam a ciência e centenas de milhares morriam sob o olhar complacente do governo anterior.

Ainda assim, continuam sob ataque.

Porque defender universidades públicas implica defender algo que o neoliberalismo brasileiro rejeita visceralmente: a ideia de que o conhecimento deve servir ao interesse coletivo, e não apenas ao lucro privado.


País que despreza seus cientistas escolhe o atraso

A tragédia brasileira é que o País, em particular a elite econômica, parece incapaz de compreender a dimensão estratégica da própria inteligência que produz.

Cada corte em bolsas de pesquisa é também incentivo à fuga de cérebros.

Cada laboratório abandonado empurra jovens cientistas para o exterior.

Cada campanha contra universidades públicas enfraquece a capacidade nacional de produzir tecnologia, medicamentos, inovação industrial e autonomia científica.

Ainda assim, mesmo atacadas, as universidades seguem produzindo o futuro.

E talvez resida aí a maior ironia da história recente brasileira: enquanto setores obscurantistas tentam destruir as universidades públicas, são essas que continuam salvando vidas, produzindo conhecimento e impedindo que o País afunde completamente na barbárie intelectual.

O Brasil ainda respira ciência porque suas universidades públicas insistem em resistir.


(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

_____________

1 Brasil perdeu patente internacional da polilaminina após cortes na UFRJ por Temer, diz cientista - https://horadopovo.com.br/brasil-perdeu-patente-internacional-da-polilaminina-apos-cortes-na-ufrj-por-temer-diz-cientista/

2 Na UnB (Universidade de Brasília), onde cientistas liderados pela pesquisadora Suélia Rodrigues desenvolveram o projeto “Rapha”, equipamento que acelera a cicatrização do chamado pé diabético. Dispositivo acelera a cicatrização e previne amputações em pacientes diabéticos - https://news.cremerj.org.br/2025/11/28/dispositivo-acelera-a-cicatrizacao-e-previne-amputacoes-em-pacientes-diabeticos/

3 A instituição pública federal onde foi desenvolvida a Calixcoca, primeira vacina do mundo com potencial para bloquear os efeitos da cocaína e do crack no cérebro, é a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Vacina desenvolvida pela UFMG bloqueia a ação das drogas no cérebro - https://www.assufrgs.org.br/2023/06/02/vacina-desenvolvida-pela-ufmg-bloqueia-a-acao-das-drogas-no-cerebro/









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