Emprego cresce, mas o trabalhador continua pobre

Brasília-DF, sexta-feira, 28 de novembro de 2025


Brasília, sexta-feira, 28 de novembro de 2025 - 15:43

Emprego cresce, mas o trabalhador continua pobre


Por: Marcos Verlaine*

O Brasil também. Saldo positivo do Caged contrasta com renda média de R$ 2.304. Apenas 1,52 salário mínimo. Juros de 15% travam consumo e investimento. Organismos internacionais apontam que, sem elevar produtividade e renda, o País seguirá preso ao baixo crescimento.

Arquivo: Agência Brasil

Para além das comemorações, os números do emprego divulgados pelo Caged1 escondem dura realidade. Assim, é preciso lançar olhar para além dos números e desvendar ou enxergar o que esses não revelam numa visão meramente superficial.

O Brasil encerra mais um ciclo com aumento no emprego formal, segundo o Caged. Em qualquer economia emergente, esse seria dado inequívoco de avanço. Mas não é bem assim. Vamos explorar melhor esses dados, em perspectiva crítica.

Leia também: O falso milagre do recorde de empregos

Aqui, porém, esse é acompanhado de fator que impede comemoração plena: a renda média dos trabalhadores permanece em apenas R$ 2.304, o equivalente a 1,52 salário mínimo.

Economistas como Monica de Bolle (Peterson Institute) e Laura Carvalho (USP) têm insistido há anos na mesma tecla: crescimento baseado apenas em ocupação, sem aumento de renda e produtividade, produz expansão frágil e insustentável.

E é exatamente isso que os dados brasileiros revelam: economia que emprega, mas não emancipa.

Renda estagnada: problema estrutural

O Banco Mundial e a OCDE destacam repetidamente que o Brasil é um dos países com maior desalinhamento entre produtividade e remuneração.

Enquanto a produtividade brasileira cresce em ritmo lento há quase 4 décadas, os salários se arrastam ainda mais.

Relatórios recentes desses organismos mostram que:

• A renda real dos trabalhadores brasileiros estagnou ao longo dos últimos 10 anos;
• O Brasil tem um dos piores índices de mobilidade social da América Latina; e
• Setores de baixo valor agregado concentram a maior parte da mão de obra formal.

R$ 2.304 não cobre o custo de vida básico em grandes centros urbanos, e mesmo em cidades médias a renda é tragada por aluguel, energia e alimentação; itens que puxaram a inflação estrutural nos últimos anos, como destacam boletins do Ipea.

O resultado é paradoxo cruel: o trabalhador está empregado, mas continua pobre. A formalização, embora bem-vinda, não garante dignidade econômica.

Juros de 15%: a economia não suporta

A taxa básica de juros (Selic) na casa dos 15% coloca o Brasil na contramão do mundo. Enquanto Estados Unidos, Europa e países latino-americanos reduzem juros para proteger consumo e investimento, o Brasil segue com política monetária restritiva, regressiva e extorsiva.

Segundo o FMI, juros elevados por longos períodos reduzem o potencial de crescimento, desestimulam inovação e penalizam pequenas e médias empresas, motores de qualquer economia emergente.

Os efeitos são claros:

Crédito caro - famílias desistem de financiar bens duráveis;

PME (Pequenas e Médias Empresas) paralisadas - empresários deixam de investir, contratar e expandir;

Menor consumo interno - principal variável que explica 60% do PIB brasileiro; e

Economia patina - alimentando círculo vicioso de baixo crescimento.

O economista André Lara Resende, ex-diretor do Banco Central, resume a situação: “Juros tão altos por tanto tempo não controlam inflação — controlam crescimento e oportunidades.”

Cresimento que não distribui

Ipsos, Cepal e OCDE têm reiterado que o Brasil vive armadilha: cresce pouco porque produz pouco; produz pouco porque paga mal; paga mal porque não investe em inovação nem tampouco em qualificação.

E a política monetária atual exacerba esse quadro.

A geração de empregos é passo importante, mas insuficiente. Sem salário digno, o País não cria mercado consumidor robusto, condição fundamental para qualquer ciclo de desenvolvimento sustentado.

Brasil precisa escoher entre presente e futuro

O cenário exige escolhas estratégicas:

• Política de renda que reduza a defasagem salarial;

• Aceleração da produtividade, via educação, inovação e crédito barato;

• Reformas que reduzam o custo Brasil; e

• Sobretudo, juros compatíveis com a realidade produtiva, não apenas com a ortodoxia financeira.

Gerar vagas é positivo. Gerar renda é transformador. São necessárias ambas.

Enquanto essa transformação não ocorrer, o Brasil seguirá comemorando empregos que mantêm milhões no mesmo lugar: empregados, mas ainda pobres. Com a imensa maioria pobre, o Brasil segue também pobre, embora seja rico, porque a renda está concentrada.

E assim não distribui riqueza. Trata-se de ciclo vicioso e não do ciclo virtuoso, porque clama o povo brasileiro.

 

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

_________________

1 Brasil cria 85 mil empregos formais em outubro e acumula 1,8 milhão de novos vínculos em 2025 - https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/novembro/pais-acumula-um-total-de-1-8-milhao-de-empregos-gerados-em-2025#:~:text=Segundo%20dados%20do%20Novo%20Caged,crescimento%20de%203%2C8%25- acesso em 26.11.25









Últimas notícias

Notícias relacionadas



REDES SOCIAIS
Facebook Instagram

Sindicato dos Auxiliares de Administração Escolar em Estabelecimentos Particulares de Ensino no Distrito Federal

SCS Quadra 1, Bloco K, Edifício Denasa, Sala 1304,
Brasília-DF, CEP 71398-900 Telefone (61) 3034-8685
recp.saepdf@gmail.com