1º de abril, a verdade incômoda

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Brasília, segunda-feira, 6 de abril de 2026 - 11:35

1º de abril, a verdade incômoda


Por: Marcos Verlaine*

Entre mitos convenientes e fatos documentados, a ditadura militar segue sendo reescrita — e suavizada — por quem dessa nunca foi alvo.

Reprodução: Arquivo Público do DF

Há uma disputa, dentre tantas no País, em curso no Brasil que não é apenas política: é histórica, moral e pedagógica. E, como toda disputa desse tipo, começa pela manipulação de símbolos, inclusive datas.

O golpe civil-militar de 1964 não se consumou em 31 de março, como a narrativa oficial quis fixar nos calendários e quartéis, mas em 1º de abril: o Dia da Mentira. Isto não é detalhe folclórico: é gesto deliberado de construção de memória.

Ao deslocar a data, os próprios protagonistas já ensaiavam a operação que marcaria o regime: reescrever fatos para torná-los aceitáveis.

O movimento liderado pelo general Olímpio Mourão Filho — o mesmo personagem ligado ao Plano Cohen de 19371, peça forjada para justificar o golpe do Estado Novo — partiu de Minas Gerais dia 31 de março, mas o desfecho institucional e político se consolidou apenas no dia seguinte, quando o poder já estava sequestrado e as resistências, neutralizadas.

A cronologia, portanto, desmonta a versão oficial: o golpe não apenas ocorreu sob o signo da mentira, como foi sustentado por essa.

Milagre endividado

Entre mitos e mentiras, sim, houve crescimento econômico entre 1969 e 1973. O chamado “milagre econômico” elevou o PIB a taxas robustas e alimentou a propaganda oficial de eficiência do regime.

Mas o milagre tinha preço e fiador: dívida externa em escala inédita, concentração brutal de renda e arrocho salarial sistemático. O crescimento não foi acompanhado de distribuição de renda, nem tampouco de sustentabilidade.

Quando o cenário internacional mudou, com o choque do petróleo, em 1973, e o encarecimento do crédito externo, a conta chegou de forma devastadora.

O regime militar entregou ao País inflação descontrolada, crise fiscal e estagnação prolongada. O que se vendeu como milagre foi, na prática, experimento de crescimento artificial sustentado por endividamento e exclusão social.

Segurança seletiva

A ideia de que “o Brasil era mais seguro” no regime militar é meia-verdade que, examinada de perto, revela-se construção ideológica. Para setores da chamada “classe média” que não confrontavam o regime, a sensação de ordem podia existir.Ainda que baseada no medo difuso e na ausência de liberdade.

Mas para negros, pobres, trabalhadores, estudantes, artistas e qualquer cidadão rotulado como “subversivo”, o Estado era ameaça concreta, cotidiana e institucionalizada.

Prisões arbitrárias, vigilância, censura e violência eram instrumentos normais de governo. Segurança que depende da supressão de direitos e da intimidação não é segurança: é controle social seletivo. Era o privilégio de poucos que foi sustentado pelo terror de muitos.

Fantasma do comunismo

Outro eixo central da narrativa da ditadura foi o suposto combate ao comunismo iminente. Tratava-se de espantalho político cuidadosamente inflado. João Goulart não era comunista, mas reformista que defendia reformas de base — agrária, educacional, urbana e financeira — dentro da ordem institucional.

O “perigo vermelho” foi instrumentalizado como justificativa para interromper processo democrático que ameaçava interesses consolidados. A retórica anticomunista funcionou como licença para o autoritarismo. Até hoje usam o espantalho do comunismo para tentar suprimir as liberdades democráticas.

E mais: a própria história internacional demonstra que o comunismo, como ideal teórico, jamais se materializou plenamente, nem mesmo em países que passaram por revoluções socialistas. O inimigo, portanto, era menos real do que útil.

Corrupção e conivência

A opacidade do regime militar não eliminou a corrupção.Ao contrário. Criou as condições ideais para sua expansão silenciosa. Sem imprensa livre, sem mecanismos de controle e com instituições capturadas, práticas ilícitas encontraram terreno fértil.

Décadas depois, vieram à tona evidências dessa promiscuidade entre Estado e interesses privados.

Em 2020, a Volkswagen do Brasil admitiu ao Ministério Público que colaborou com a repressão, denunciando trabalhadores dentro de suas fábricas. Não se tratava de desvio isolado, mas de padrão: empresas e setores econômicos que se beneficiaram do ambiente autoritário em troca de alinhamento político e operacional.

A corrupção, nesse contexto, não era exceção.Era parte da engrenagem.

Violência de estado

A narrativa da “ditadura branda” talvez seja a mais ofensiva à memória das vítimas do regime. A CNV (Comissão Nacional da Verdade)2 documentou 434 mortos e desaparecidos políticos.Número oficial que, por definição, é incompleto.

Pesquisas acadêmicas ampliam esse quadro ao incluir populações indígenas dizimadas por políticas de ocupação territorial e trabalhadores rurais vítimas de repressão sistemática.

Some-se a isso milhares de presos políticos, torturados, exilados e silenciados. A violência não era desvio do sistema.Era o próprio sistema em funcionamento. Quando o Estado transforma a repressão em política pública, não há adjetivo suavizador que resista.

Não esquecer é resistir

Revisitar 1964 não é exercício de revisionismo ideológico. É, antes de qualquer aspecto, imperativo democrático.

Sociedades que relativizam seu passado autoritário tendem a flertar com sua repetição. A disputa não é apenas sobre o que aconteceu, mas sobre como escolhemos lembrar.E, sobretudo, o que estamos dispostos a tolerar no presente.

No fim, a controvérsia sobre a data do golpe é apenas a superfície de problema mais profundo: a dificuldade histórica de o Brasil encarar seus próprios fantasmas.

Não é sobre calendário. É sobre verdade, responsabilidade e memória. E, enquanto a mentira seguir sendo mais confortável do que os fatos, o 1º de abril continuará sendo menos coincidência.E mais retrato.


(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

_________________

1O Plano Cohen foi documento forjado, divulgado em 30 de setembro de 1937, que simulava “conspiração comunista” para tomar o poder no Brasil. Foi utilizado como pretexto pelo então presidente Getúlio Vargas e por setores das Forças Armadas para instaurar a ditadura do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, que fechou o Congresso Nacional e cancelou as eleições presidenciais de 1938.


2A CNVfoi instância instituída pelo Estado brasileiro para investigar e esclarecer graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, com foco principal no período da ditadura militar (1964-1985). Foi criada pela Lei12.528/11 e instalada em maio de 2012 pela então presidente Dilma Rousseff. Suas atividades foram encerradas em dezembro de 2014 com a entrega do relatório final.









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