Brasília, segunda-feira, 22 de junho de 2026 - 8:43
Menos horas, mais empregos e a lição colombiana que desafia os críticos da redução da jornada
País de 53 milhões de habitantes criou 787 mil novos postos de trabalho durante transição para semana de 42 horas levou desemprego ao menor patamar em décadas
Essa experiência colombiana é, concretamente, laboratório real para o debate brasileiro. Enquanto parte do empresariado brasileiro prevê desemprego, fechamento de empresas e retração econômica caso avance a redução da jornada de trabalho, a experiência recente da Colômbia aponta em outra direção.
Com população de aproximadamente 53,1 milhões de habitantes e PEA (População Economicamente Ativa) estimada entre 26 e 27 milhões de pessoas, segundo dados oficiais do Dane (Departamento Administrativo Nacional de Estatística), o país andino conclui neste ano uma das mais importantes reformas trabalhistas de sua história recente: a redução gradual da jornada semanal de 48 para 42 horas sem redução salarial.
Os resultados têm chamado a atenção de economistas, sindicalistas e formuladores de políticas públicas em toda a América Latina. Entre 2022 e 2025, a mudança contribuiu para a criação de cerca de 787 mil novos empregos, de acordo com levantamento da Corficolombiana (Corporación Financiera Colombiana), é a principal holding de investimentos e banco de desenvolvimento da Colômbia.
No mesmo período, a taxa de desemprego caiu para os níveis mais baixos registrados em décadas.
A última etapa da transição entra em vigor em 15 de julho, quando a jornada máxima semanal será definitivamente fixada em 42 horas.
O colapso que não aconteceu
A reforma foi aprovada em 2021, durante o governo do então presidente conservador Iván Duque. Posteriormente, já sob o governo de Gustavo Petro, o processo foi complementado por série de medidas orientadas à valorização do trabalho, entre essas o aumento real do salário mínimo e a ampliação de direitos relacionados ao trabalho noturno.
Desde o início das discussões, setores empresariais alertavam para os riscos de fechamento de postos de trabalho, perda de competitividade e aumento dos custos de produção.
Até aqui, porém, os números não confirmaram essas previsões catastróficas.
Para Stefano Farné, diretor do Observatório do Mercado de Trabalho e Seguridade Social da Universidade Externado, em Bogotá, houve efetivamente aumento do custo por trabalhador. Ainda assim, o mercado de trabalho manteve trajetória positiva.
Segundo ele, o emprego formal privado continua crescendo e não há evidências de deterioração significativa decorrente da redução da jornada.
A própria criação dos 787 mil postos de trabalho é explicada, em parte, pela necessidade de as empresas distribuírem entre mais trabalhadores as horas que deixaram de ser cumpridas por cada empregado individualmente.
Resistência empresarial
Isso não significa que a transição tenha ocorrido sem resistências por parte dos empresários colombianos.
Levantamento da Fenalco (Federación Nacional de Comerciantes Empresarios), entidade equivalente à CNC (Confederação Nacional do Comércio) no Brasil, realizado com 610 empresários em 25 cidades colombianas, identificou mudanças importantes na organização das empresas.
Mais da metade dos entrevistados afirmou ter reduzido o horário de funcionamento dos estabelecimentos. Cerca de 1/4 informou ter acelerado processos de automação, enquanto quase 1/4 declarou ter repassado parte dos custos aos preços finais.
Os segmentos mais afetados foram comércio varejista, bares, restaurantes, hotelaria e serviços de vigilância.
Parte dos empresários também relatou redução de contratações e revisão de planos de expansão. Ainda assim, esses ajustes não impediram que o mercado de trabalho apresentasse saldo positivo de empregos durante a implementação da reforma.
Menos horas, mais gente trabalhando
A Corficolombiana identificou consequência frequentemente ignorada nos debates sobre jornada de trabalho: a produtividade medida por trabalhador pode cair quando o mesmo volume de tarefas passa a ser distribuído entre mais pessoas.
Para alguns analistas, isso representa desafio econômico. Para outros, trata-se justamente de um dos objetivos centrais da política pública: compartilhar trabalho, ampliar oportunidades de emprego e distribuir melhor os ganhos de produtividade da economia.
Sob essa ótica, a contratação de mais trabalhadores para executar o mesmo volume de atividade não constitui distorção, mas resultado socialmente desejável.
O fator gradualidade
Um dos elementos mais citados pelos especialistas para explicar a adaptação relativamente tranquila do mercado colombiano foi o prazo de transição.
Em vez de mudança abrupta, a redução ocorreu em etapas distribuídas ao longo de 5 anos. Farné considera essa gradualidade decisiva para o sucesso da experiência.
Segundo ele, transformações dessa magnitude exigem tempo para que empresas reorganizem escalas, processos produtivos, investimentos e estratégias de contratação.
A avaliação encontra eco no debate brasileiro.
A proposta em discussão prevê transição em 2 etapas: redução inicial para 42 horas semanais e, posteriormente, para 40 horas. Embora economistas apontem desafios de adaptação, há consenso de que período de transição é preferível a mudanças imediatas.
Precedente chileno
A Colômbia não está sozinha. O Chile já havia percorrido caminho semelhante quando reduziu sua jornada semanal de 48 para 45 horas.
Estudos posteriores concluíram que a medida não provocou impactos relevantes sobre o nível de emprego. Em contrapartida, contribuiu para melhorar a remuneração por hora trabalhada e incentivou empresas a reorganizarem processos internos.
O período de adaptação permitiu que ajustes fossem feitos sem as demissões em massa frequentemente anunciadas durante os debates legislativos.
Tendência global
A discussão sobre redução da jornada deixou de ser experiência isolada para se transformar em tendência internacional.
Diversos países vêm testando semanas de trabalho mais curtas, impulsionados por avanços tecnológicos, aumento da produtividade e mudanças nas expectativas dos trabalhadores sobre qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e tempo livre.
Nesse contexto, o debate brasileiro não representa ruptura radical, mas a inserção do País em transformação que já alcança diferentes economias ao redor do mundo. Por aqui, o setor supermercadista já experimenta com satisfação essa experiencia, em pelo menos 5 estados: SP, MG, ES, DF e RJ, com alteração da escala 6x1 para 5x2.
A experiência colombiana sugere que a pergunta central talvez não seja se é possível trabalhar menos, mas como organizar essa transição de maneira gradual, equilibrada e capaz de combinar crescimento econômico, geração de empregos e melhoria das condições de vida dos trabalhadores.
Quadro comparativo: Brasil e Colômbia
Brasil × Colômbia - Indicadores econômicos e sociais (2026*)
|
INDICADOR |
BRASIL |
COLÔMBIA |
|---|---|---|
|
População |
cerca de 213,6 milhões |
cerca de 53,9 milhões |
|
PEA (População Economicamente Ativa) |
cerca de 111 milhões |
entre 26 e 27 milhões |
|
PIB nominal |
US$ 2,64 trilhões |
US$ 539,5 bilhões |
|
PIB per capita |
US$ 12,3 mil |
US$ 10,1 mil |
|
Salário médio mensal |
cerca de R$ 3.680 |
cerca de COP 2,2 milhões (aprox. US$ 540) |
|
Inflação anual |
cerca de 4,1% (projeções de mercado para 2026) |
5,68% |
|
Taxa básica de juros |
14,25% ao ano (Selic) |
9,25% ao ano (Banco da República) |
|
Taxa de desemprego |
entre 5,4% e 5,8% |
cerca de 8% a 9% |
|
Jornada legal semanal |
44 horas (vigente) |
42 horas (a partir de julho de 2026) |
|
Escala predominante prevista em debate |
PEC propõe migração para 5×2 |
Redução concluída sem alteração generalizada das regras de descanso |
|
Crescimento do PIB (2026) |
1,9% |
2,3% |
(*) Dados de 2026 ou dos levantamentos mais recentes disponíveis.
Outros indicadores que enriquecem a comparação
|
INDICADOR |
BRASIL |
COLÔMBIA |
|---|---|---|
|
Participação dos serviços no PIB |
~70% |
~63% |
|
Salário mínimo mensal |
R$ 1.621 |
COP 1.423.500 |
|
Índice de Gini (desigualdade) |
~0,52 |
~0,54 |
|
População urbana |
~88% |
~80% |
|
Empregos criados após a redução da jornada |
Em debate |
787 mil entre 2022 e 2025 |
O que os números revelam
A comparação é particularmente interessante porque a economia colombiana possui aproximadamente 1/4 da população brasileira e PEA cerca de 4 vezes menor, mas conseguiu implementar a redução gradual da jornada de 48 para 42 horas semanais sem registrar deterioração do mercado de trabalho.
Ao contrário, foram criados 787 mil empregos durante o período de transição, enquanto a taxa de desemprego recuou para os menores níveis das últimas décadas.
Outro dado relevante para o debate brasileiro é que a Colômbia realizou essa mudança mesmo convivendo com inflação superior à brasileira e juros relativamente elevados para padrões latino-americanos.
Isso enfraquece parte dos argumentos segundo os quais a redução da jornada necessariamente provocaria desemprego em massa ou colapso econômico.
Contudo, os especialistas colombianos costumam destacar fator decisivo: a reforma foi implementada gradualmente ao longo de 5 anos, permitindo adaptação das empresas e do mercado de trabalho.
Últimas notícias
Pejotização avança e esvazia proteção trabalhista
18/6 - 20:45 |
Freio para os trabalhadores e acelerador para as despesas
18/6 - 20:39 |
A arte de empurrar com a barriga para tentar inviabilizar redução da jornada
18/6 - 20:32 |
Governo abre caminho para votações na Câmara, mas mantém ofensiva pelo fim da escala 6×1
17/6 - 21:46 |
SAEP celebra os 35 anos da Contee e reforça defesa da educação e dos direitos trabalhistas

