Brasília, terça-feira, 11 de agosto de 2026 - 15:26
O Congresso que vem: pouca renovação, muito continuísmo
Por: Marcos Verlaine*
Com 87,3% dos deputados buscando a reeleição e 2/3 das cadeiras do Senado em disputa, as urnas podem renovar nomes sem alterar significativamente a orientação econômica e política nem tampouco a correlação de forças do Parlamento.
Que Congresso o eleitor pode esperar depois das eleições de outubro de 2026? A pergunta não é meramente quantitativa ou retórica. É, sobretudo, política: a mudança de nomes será suficiente para mudar o perfil do Parlamento?
Os números preliminares do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) sugerem cautela. Dos 513 deputados federais em exercício, 448 pretendem disputar a reeleição, o equivalente a 87,32% da Câmara; o maior índice de recandidatura da série histórica acompanhada pelo Departamento. No Senado, dos 54 parlamentares cujo mandato termina neste ano, 34 sinalizaram intenção de permanecer na Casa, ou 62,96% das vagas em disputa.
É possível, portanto, que as eleições produzam situação paradoxal: muita disputa eleitoral, mas pouca renovação efetiva do Poder parlamentar. Esse “poder”1 é substantivo, mas também pode ser verbo. Isto é, tem maior poder de agenda e crescente controle sobre recursos orçamentários e financeiros, especialmente por meio das emendas parlamentares2, o Congresso tornou-se hoje mais poderoso do que o Executivo de outrora.
Na Câmara, a tendência é especialmente evidente. Historicamente, a renovação média gira em torno de 45%. O número excepcional de deputados que pretendem permanecer no cargo reduz o espaço disponível para novos atores e torna mais provável a preservação das atuais estruturas de poder.
Isso não significa que o próximo Congresso será necessariamente idêntico ao atual. Significa algo mais sutil. E talvez mais importante: as condições objetivas favorecem a reprodução do Parlamento existente.
Mandato como patrimônio eleitoral
A reeleição parlamentar deixou de ser apenas disputa entre projetos políticos. Tornou-se também competição profundamente marcada pela vantagem de quem já ocupa o cargo.
O próprio Diap aponta fatores que ajudam a explicar essa permanência: controle de espaços partidários, reconhecimento público, estrutura política local e, sobretudo, o acesso às emendas parlamentares.
Esse último fator ganhou dimensão particularmente relevante. Segundo o Diap, os recursos administrados pelos parlamentares podem ultrapassar R$ 40 milhões por deputado em 2026. Distribuídas pelos municípios, as verbas financiam obras e serviços e conferem ao parlamentar presença concreta nas chamadas bases eleitorais.
Não se trata de afirmar que toda emenda seja eleitoralmente indevida. O problema está no desequilíbrio estrutural de eleição na qual quem já possui mandato dispõe de instrumentos políticos, financeiros e institucionais que candidato estreante dificilmente consegue igualar.
É a própria lógica do sistema que favorece quem está dentro.
O Diap, portanto, resume esse fenômeno na Cartilha das Eleições 2026 ao observar que “as regras do jogo favorecem quem já está dentro”, apontando o limite de candidaturas e o crescimento das emendas impositivas como fatores que dificultam a renovação.
Pouca renovação,
muito continuísmo
É nesse ponto que a discussão deixa de ser estatística e passa a ser política.
Se a Câmara preservar a esmagadora maioria dos atuais ocupantes, será razoável esperar também a permanência de boa parte das práticas, das relações de poder e das prioridades que marcaram a legislatura 2023-2027.
O Diap já havia advertido, no início do ano, que o comportamento da atual legislatura poderia não corresponder aos interesses de parcela significativa da sociedade e que o discurso de “Congresso Inimigo do Povo” não necessariamente se converteria em mudança substancial nas urnas. A avaliação foi direta: a tendência seria a manutenção de padrão ideológico e comportamental semelhante.
Essa constatação permite formular hipótese para 2027: se a correlação de forças permanecer próxima da atual, a mudança de legislatura poderá representar mais continuidade do que ruptura.
E continuidade, no caso do Congresso, não significa apenas repetir nomes. Significa preservar determinada concepção sobre o papel do Estado, da economia, dos direitos sociais e da relação entre Legislativo e Executivo.
Na economia,
risco é mais do mesmo
É possível enxergar nessa perspectiva tendência de continuidade de agenda econômica predominantemente orientada pela redução do espaço de intervenção estatal, pela valorização do mercado e pela contenção ou flexibilização de políticas públicas e direitos.
Essa leitura não decorre simplesmente da identidade ideológica de cada parlamentar. Essa resulta também da correlação de forças entre bancadas, blocos e grupos de interesse.
O próprio Diap identifica, entre as visões em disputa nas eleições, concepção que “aposta no mercado, na abertura econômica e no encolhimento do Estado”. O documento apresenta essa posição como um dos projetos em disputa no processo eleitoral, ao lado de outras concepções de Estado e sociedade.
A questão, portanto, não é prever que todos os parlamentares reeleitos defenderão exatamente a mesma agenda. É reconhecer que uma Câmara com baixíssima renovação tende a reproduzir a correlação de forças que permitiu a aprovação ou o bloqueio de determinadas matérias na legislatura atual.
Nesse cenário, o debate sobre direitos trabalhistas, políticas sociais, serviços públicos, tributação, Previdência, regulação econômica e papel das empresas estatais continuará sendo travado em terreno semelhante.
No campo político,
conservadorismo permanece
O mesmo raciocínio vale para a dimensão política.
A atual composição do Congresso abriga forte presença de forças conservadoras, de centro-direita e de direita, além de centro parlamentar com elevada capacidade de negociação e poder de agenda.
O resultado não é necessariamente Congresso ideologicamente homogêneo. Ao contrário: a força do chamado centro está justamente em sua capacidade de negociar com governos e diferentes campos políticos.
Mas o fortalecimento do Legislativo modificou profundamente a relação entre os Poderes. Em análise publicada pelo próprio Diap, Neuriberg Dias, que é diretor de Documentação do órgão de assessoria, observa que o Executivo perdeu parte da capacidade de determinar sozinho o ritmo das decisões e que o poder político foi redistribuído em favor do Parlamento.
Isso tem consequência prática: governo eleito em 2026, qualquer que seja sua orientação, encontrará Congresso com poder próprio, interesses próprios e agenda própria.
Não basta, portanto, eleger o presidente. A composição do Legislativo será decisiva para determinar o que poderá ser aprovado, alterado, negociado ou simplesmente arquivado.
Senado pode ser a exceção
É no Senado que a perspectiva de mudança é mais expressiva. Isso, entretanto, não quer dizer que essa mudança será para melhor.
Dos 81 senadores, 54 cadeiras serão disputadas: 2/3 da Casa. Embora 34 dos atuais ocupantes pretendam concorrer novamente, 20 decidiram buscar outros cargos ou não permanecer no Senado.
A renovação, portanto, será necessariamente maior que na Câmara.
Mas renovar cadeiras não significa automaticamente mudar a orientação política da Casa.
O Diap já havia identificado, em projeção anterior, potencial de crescimento do PL no Senado, que poderia ampliar sua bancada de 14 para 20 senadores. Embora projeções possam mudar até a eleição, o dado demonstra que a substituição de parlamentares pode ocorrer sem produzir mudança progressista ou moderadora na correlação de forças.
Pode haver, portanto, renovação nominal sem renovação política.
A eleição que realmente importa
A consequência dessa fotografia é incômoda: a eleição parlamentar de 2026 poderá ser decidida menos pela quantidade de novos candidatos e mais pela capacidade de alterar a correlação de forças.
Se a maioria dos atuais deputados retornar, e se as forças que hoje dominam as bancadas conservadoras e de centro-direita mantiverem ou ampliarem sua presença, o próximo Congresso terá condições de preservar boa parte da agenda econômica — neoliberal — e política — conservadora, resvalando para o reacionarismo — atualmente predominante.
Nesse sentido, o eleitor não estará apenas escolhendo parlamentares; estará escolhendo a relação de forças que governará o País a partir de 2027.
A experiência recente oferece advertência. Em maio, por exemplo, a Câmara aprovou por ampla maioria — 472 votos a 22 no primeiro turno e 461 a 19 no segundo — a PEC que reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e estabelece mudanças na escala de descanso. A matéria, entretanto, chegou ao Senado e passou a depender da correlação de forças e da condução política daquela Casa, em particular do presidente.
O episódio mostra que o Congresso não é apenas obstáculo ou aliado eventual do Executivo. É um Poder autônomo que define o alcance das transformações possíveis.
Mais que nomes, projetos
É por isso que a discussão sobre renovação não deveria se limitar ao número de parlamentares que deixam ou permanecem no cargo.
Uma Câmara pode renovar 30% de seus integrantes e conservar praticamente o mesmo perfil político. Outra pode renovar percentual semelhante e produzir mudança substantiva, dependendo de quem entra e de quem sai.
O dado mais relevante do levantamento do Diap, portanto, não é apenas que 448 deputados querem permanecer deputados. É que o sistema eleitoral e parlamentar criou condições para que a continuidade seja muito mais provável do que a ruptura.
Isso coloca responsabilidade adicional sobre o eleitor: avaliar não apenas o discurso individual do candidato, mas seu partido, sua bancada, suas votações, suas alianças e o projeto de País que pretende sustentar.
O Congresso de 2027
A pergunta inicial, então, admite resposta cautelosa.
Se as atuais tendências forem confirmadas nas urnas, o próximo Congresso deverá ser mais continuísta do que renovador. Na Câmara, a baixa substituição de parlamentares tende a preservar estruturas e correlações de força. No Senado, a renovação será maior, mas poderá ocorrer sem alteração proporcional do perfil ideológico da Casa.
Daí a hipótese de Congresso economicamente semelhante ao atual, com forte presença de concepções favoráveis ao mercado e à redução do papel estatal, e politicamente conservador, ainda que marcado por negociações, disputas internas e mudanças de composição.
Não é conclusão inevitável. É tendência que poderá ser modificada pelo voto.
E essa talvez seja a principal mensagem escondida nos números do Diap: a renovação do Congresso não acontecerá simplesmente porque haverá eleição. Essa só ocorrerá de fato se o eleitorado produzir mudança suficientemente grande na correlação de forças.
Caso contrário, 2027 poderá começar com Congresso formalmente novo, mas politicamente muito parecido com o que termina em 2026. Poderá ser, tudo indica, o “novo/velho” Congresso. Sobretudo, na Câmara dos Deputados, que muda e permanece o mesmo
Em outras palavras: mudar a legislatura não é necessariamente mudar o Congresso.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
______________
1 O termo “poder” funciona como substantivo ou verbo, indicando a capacidade, a força ou a autoridade para fazer algo, bem como o direito de governar. Como verbo no infinitivo, expressa permissão ou possibilidade.
2 R$ 61 bilhões para emendas parlamentares, valor que deputados e senadores utilizam para destinar recursos a obras e projetos nas chamadas “bases eleitorais”. Deste total, R$ 50 bilhões correspondem a emendas impositivas e de comissão, e R$ 11 bilhões indicações gerenciadas pelo governo. No PLDO (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias) enviado pelo governo federal para 2027, a previsão inicial para o conjunto de emendas parlamentares é de cerca de R$ 51 bilhões. Certamente, este valor será majorado pelos parlamentares. No mínimo, será igual ao de 2026.
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