A IA ainda não destrói empregos. Apenas começou pelos jovens

Brasília-DF, quinta-feira, 16 de julho de 2026


Brasília, quinta-feira, 16 de julho de 2026 - 10:2

A IA ainda não destrói empregos. Apenas começou pelos jovens


Por: Marcos Verlaine*

Relatório da OCDE mostra que a IA ainda não reduziu o emprego nos países desenvolvidos. Mas o primeiro grupo a sentir seus efeitos já está identificado: os jovens. Se esse é o cenário nas economias mais protegidas do mundo, a América Latina corre o risco de enfrentar revolução tecnológica muito mais excludente.

Imagem: DC Studio no Magnific

Este é o primeiro aviso da revolução silenciosa que caminha a passos largos sobre os empregos. Primeiro dificulta o ingresso dos jovens no mercado de trabalho. Trata-se de pauta que o movimento sindical precisa debruçar-se e pedir estudos ao Dieese, Ipea e Unicamp/Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho).

Há uma velha máxima da economia segundo a qual as grandes transformações não chegam fazendo barulho. Essas começam discretamente, alterando margens, deslocando prioridades e modificando comportamentos até que, de repente, tudo mudou. Atenção para aquilo que interessa às futuras gerações.

É exatamente isso que revela o mais recente relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre o mercado de trabalho1.

Os números parecem tranquilizadores. O desemprego permanece em níveis historicamente baixos entre os 38 países que compõem a organização. O emprego continua crescendo. Não há evidências, até agora, de substituição em massa de trabalhadores pela IA.

Mas essa é apenas a superfície.

A verdadeira notícia está escondida nas entrelinhas do relatório: a entrada dos jovens no mercado de trabalho tornou-se significativamente mais difícil, e a própria OCDE reconhece que os avanços recentes da IA generativa2 provavelmente já fazem parte dessa explicação.

É o primeiro sintoma de doença que ainda está em incubação.


A porta de entrada
começa a desaparecer

Toda revolução tecnológica modifica a forma de produzir. A diferença é que, desta vez, a tecnologia não está substituindo apenas força física ou tarefas repetitivas. Isso começa justamente pelas atividades tradicionalmente destinadas aos profissionais iniciantes.

Durante décadas, empresas contrataram jovens para executar pesquisas, produzir textos básicos, organizar documentos, atender clientes, elaborar planilhas, programar códigos simples, fazer traduções ou realizar análises preliminares.

Hoje, boa parte dessas tarefas pode ser realizada, em segundos, por sistemas de IA.

O resultado é perverso. Se antes essas funções serviam como escola prática para formar profissionais experientes, agora muitas simplesmente deixam de existir.

Sem o primeiro emprego, não há experiência. Sem experiência, não há progressão profissional. Forma-se círculo de exclusão que ameaça uma geração inteira.


Falsa sensação de segurança

Há quem veja o relatório da OCDE como demonstração de que os temores em torno da IA eram exagerados. É leitura apressada. Nenhuma grande transformação econômica produz todos os seus efeitos simultaneamente.

A eletrificação levou décadas para alterar profundamente a indústria. A informatização começou eliminando datilógrafos antes de transformar praticamente todos os setores econômicos.

A internet não destruiu empregos de imediato, mas redefiniu completamente o comércio, os serviços, a comunicação e a produção de conhecimento.

Com a inteligência artificial ocorre o mesmo. Primeiro aumenta a produtividade. Depois reorganiza processos. Em seguida reduz contratações. Só então substitui ocupações inteiras. Estamos apenas no início desse processo.


Diferença entre Europa e AL

Existe, porém, variável decisiva que costuma passar despercebida. Os países da OCDE possuem mercados de trabalho muito mais estruturados que os latino-americanos.

Dispõem de sistemas robustos de qualificação profissional, proteção social, negociação coletiva consolidada, maior capacidade de investimento em educação tecnológica e empresas com elevado nível de inovação.

Mesmo assim, os jovens já encontram mais dificuldades para ingressar no mercado.

A pergunta inevitável é: o que acontecerá quando essa mesma transformação atingir economias marcadas pela informalidade, pela baixa escolarização, pela precarização do trabalho e pela reduzida capacidade de requalificação profissional?

Na América Latina, a IA tende a encontrar terreno muito mais frágil. Milhões de trabalhadores sequer concluíram o ensino médio. Grande parte da população economicamente ativa sobrevive em ocupações informais.

As pequenas empresas possuem baixa capacidade tecnológica. Os sistemas públicos de qualificação profissional permanecem insuficientes. Em ambiente assim, a substituição de funções tende a produzir efeitos sociais muito mais intensos.


Risco da nova
exclusão tecnológica

Existe outro aspecto pouco debatido. A IA não elimina apenas postos de trabalho. Altera profundamente a distribuição das oportunidades. Quem domina tecnologia passa a produzir mais, ganhar mais e disputar vagas em melhores condições.

Quem não domina fica progressivamente deslocado. A desigualdade deixa de ser apenas econômica. Transforma-se em desigualdade tecnológica. E essa talvez seja a face mais preocupante da nova economia.

Não se trata apenas de perder empregos. Trata-se de perder capacidade de competir.


Desafio para
sindicatos e governos

Essa transformação impõe enorme desafio ao movimento sindical, às universidades e ao Estado. A agenda trabalhista do século 21, que está apenas no segundo decênio, já não pode limitar-se ao debate sobre salários, jornada ou direitos tradicionais. Embora todos continuem essenciais.

Será necessário incorporar nova dimensão: o direito permanente à requalificação profissional.

Isso significa investir massivamente em educação digital, formação continuada, alfabetização em IA e políticas públicas capazes de preparar trabalhadores para funções que ainda sequer existem.

Também será indispensável fortalecer a negociação coletiva para disciplinar a adoção da IA nas empresas, estabelecendo limites para substituições indiscriminadas, mecanismos de transparência algorítmica, proteção de dados dos trabalhadores e programas obrigatórios de requalificação sempre que novas tecnologias forem implementadas.

Sem esse equilíbrio, a inovação tende a ampliar a produtividade das empresas enquanto concentra renda e distribui insegurança.


O futuro começou e
cobra antecipação

O relatório da OCDE não anuncia catástrofe. Mas tampouco autoriza a complacência.

Os primeiros sinais da IA sobre o emprego já apareceram exatamente onde as transformações costumam começar: na entrada do mercado de trabalho. Os jovens são os primeiros afetados.

Depois virão profissionais administrativos, analistas, técnicos, trabalhadores de serviços e, gradualmente, ocupações cada vez mais qualificadas.

A história econômica ensina que nenhuma revolução tecnológica foi interrompida por resistência política. Mas também demonstra que seus efeitos sociais dependem das escolhas feitas pelos governos e pela sociedade.

A inteligência artificial pode inaugurar era de prosperidade compartilhada ou aprofundar desigualdades inéditas. Na Europa, essa ainda produz apenas os primeiros sintomas.

Na América Latina, se governos, empresas e trabalhadores não começarem desde já a construir políticas de proteção, qualificação e regulação, a doença poderá chegar muito antes da cura.

 

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

_______________

1 https://www.oecd.org/en/publications/oecd-employment-outlook-2026_7e710f54-en.html - acesso em 11.6.26


2 IA generativa é um tipo de algoritmo projetado para criar conteúdos originais: textos, imagens, vídeos, áudios e códigos. Ao contrário das IA tradicionais, que apenas analisam dados, essa usa aprendizado de máquina para gerar resultados inéditos baseados nos padrões que aprendeu durante o treinamento.

 









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