2026: duelo das visões — democracia social ou autoritarismo reembalado?

Brasília-DF, terça-feira, 3 de março de 2026


Brasília, terça-feira, 3 de março de 2026 - 10:4

2026: duelo das visões — democracia social ou autoritarismo reembalado?


Por: Marcos Verlaine*

Lula e Flávio Bolsonaro simbolizam mais que candidaturas. Representam projetos antagônicos de Estado, economia e democracia que serão confrontados à luz dos legados oferecidos à sociedade.

Reprodução: Presidência da República/ Agência Senado.

Há 2 projetos e 2 legados a serem escrutinados nas eleições de outubro. Assim, o pleito de 2026 não será uma disputa convencional. Será, na verdade, plebiscito entre 2 campos políticos consolidados — lulismo e bolsonarismo — que carregam consigo não apenas propostas, mas experiências concretas de poder.

De um lado, Lula (PT) tentará o quarto mandato ancorado no balanço de seu terceiro governo (2023-2026).

De outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), preposto do ex-presidente, se apresenta como “versão moderada” do bolsonarismo, embora o movimento que representa mantenha como eixo a confrontação institucional, sobretudo com o STF (Supremo Tribunal Federal).

Em 2026, o eleitor não decidirá no vazio: decidirá comparando gestões.


Lulismo sob escrutínio: crescimento cmo tensão fiscal

O terceiro mandato de Lula chega a 2026 com indicadores ambivalentes. Há recuperação econômica relevante: o Brasil voltou ao grupo das 8 maiores economias do mundo em 2024, 66 dos 99 principais indicadores sociais melhoraram, programas como o Bolsa Família foram reestruturados e o Minha Casa, Minha Vida retomou foco nas faixas de menor renda.

O governo também recuperou protagonismo ambiental e diplomático, com destaque para a agenda climática e a preparação para a COP 30. Aprovou proposta de governo importante: isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil. Ao final do ano fiscal, isso vai significar um 14º salário.

Mas o cenário fiscal preocupa. A dívida bruta avançou de 71% para 78% do PIB até o fim de 2025. As estatais registraram déficit recorde de R$ 20,5 bilhões.

A articulação política no Congresso tem sido frágil, resultando no pior aproveitamento legislativo desde 1988.

A aprovação popular oscilou, chegando a mínimas de 24% em momentos de inflação pressionada.

O lulismo, portanto, apresenta-se como projeto social-liberal de forte intervenção estatal, redistribuição de renda e reconstrução institucional. Porém tensionado pelo desafio da responsabilidade fiscal1 e pela dificuldade de formar maioria estável no Congresso.


Bolsonarismo e histórico: eficiência fiscal com erosão democrática?

O governo Jair Bolsonaro (2019-2022) entregou superávit primário em 2022 (R$ 54,9 bilhões), reduziu a dívida em relação ao pico de 2021, aprovou a contrarreforma da Previdência, nos moldes do mercado, privatizou a Eletrobras e registrou lucros recordes na Petrobrás. Houve avanço na infraestrutura rodoviária e reorganização das contas públicas.

Isso porque, em grande medida, deu de ombros para a agenda social. Lembre-se, os mais pobres fizeram filas para pegar ossos, porque estavam passando fome no auge da crise pandêmica. Vamos escrever sobre isto em artigo específico. Houve conjunção de fatores conjunturais. 

No entanto, o saldo institucional é o ponto central do debate.

A condução da pandemia marcou profundamente o período. A postura negacionista, o confronto com recomendações médicas e científicas e a demora na aquisição de vacinas são amplamente criticados.

O Brasil superou 700 mil mortes por covid-19. A CPI da Pandemia recomendou o indiciamento do então presidente por 9 crimes. Mesmo que Bolsonaro sustente que agiu para preservar a economia e que estados tinham autonomia para restrições, o embate com a ciência e a promoção de tratamentos sem eficácia deixaram marcas políticas, sociais e morais.

No plano ambiental, houve aumento expressivo do desmatamento e enfraquecimento de órgãos de fiscalização, com desgaste internacional.

No plano institucional, as tensões com o STF foram constantes. O mandato terminou sob a sombra de ataques retóricos às urnas e à legitimidade do processo eleitoral, culminando na crise golpista frustrada que marcou a transição de poder.


Flávio: moderação estratégica ou continuidade disfarçada?

Flávio Bolsonaro tenta se descolar do tom incendiário do pai, mas não do projeto político. A estratégia anunciada de formar maioria no Senado para emparedar o STF e eventualmente promover impeachment de ministros indica que o conflito institucional permanece no horizonte.

A questão central não é apenas estilo, mas substância: o bolsonarismo aceitará os limites do Estado de Direito ou seguirá operando sob a lógica de enfrentamento permanente às instituições?

A “moderação” discursiva será testada pela coerência prática?


O que está em jogo

A eleição de 2026 opõe, a rigor, 2 visões de mundo reais:

• Uma que aposta em Estado ativo, políticas redistributivas, protagonismo ambiental e reconstrução diplomática. Ainda que com desafios fiscais e de governabilidade.

• Outra que privilegia ajuste fiscal, contrarreformas estruturais e agenda conservadora, com histórico de tensão com a democracia liberal e as instituições de controle.

Mais que programas, estará em julgamento o conceito de democracia.

O lulismo pede voto com base na recuperação social e econômica. O bolsonarismo pede nova chance sob argumento de eficiência e combate ao “sistema”.

O eleitor decidirá entre modelos que já governaram. Não haverá espaço para ilusões.


Retórica falaciosa

A propósito, é legítimo questionar: como alguém pode exercer mandato parlamentar por quase 3 décadas sem apresentar agenda substantiva de transformação nacional, chegar à Presidência da República e, ao fim do mandato, reivindicar para si o rótulo de “antissistema”?

A retórica da ruptura perde força quando confrontada com a biografia.

Quem passou 28 anos no Parlamento integrou — goste ou não — o próprio sistema que depois diz combater. E, ao assumir o comando do Executivo, teve à disposição os instrumentos formais para promover reformas estruturais profundas.

O discurso antissistema pode mobilizar afetos e indignações difusas, mas não substitui resultados concretos nem apaga responsabilidades acumuladas ao longo da trajetória pública. Em política, biografia também é argumento — e coerência — entre fala e prática, que costuma ser um dos critérios mais severos do julgamento eleitoral.


Plebiscito sobre o futuro democrático

Se 2022 foi a eleição da sobrevivência institucional, 2026 será a da consolidação — ou da reversão — desse processo.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro transcende nomes. É o embate entre projeto que opera dentro das regras, ainda que sob tensões fiscais e políticas, e outro que testou reiteradamente os limites do sistema e flertou com sua ruptura.

A pergunta que ecoará nas urnas não será apenas “quem governa melhor?”, mas “queremos preservar a democracia e o Estado de Direito?”.


(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

____________________

1 A responsabilidade fiscal é um conjunto de normas e princípios — consolidado no Brasil pela LRF (Lei Complementar 101/00) — que exige a gestão equilibrada e transparente dos recursos públicos. Impõe limites para despesas com pessoal e dívida pública, visando o planejamento, prevenção de riscos e combate à corrupção.









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