Brasília, terça-feira, 17 de março de 2026 - 16:32
Sem política, resta a guerra
Por: Marcos Verlaine*
Entre o conflito e a barbárie, a vida pública organizada segue sendo a única via civilizada para sustentar a convivência humana.
A política é, grosso modo, a invenção que nos salvou de nós mesmos. É, talvez, a mais decisiva invenção coletiva da humanidade. Não por ser perfeita — está longe disso —, mas por ser indispensável. É essa que transforma o choque inevitável de interesses em negociação, regra e convivência. Onde a política falha ou é destruída, não surge vazio neutro: emerge a força bruta.
Desde as primeiras formas de organização social, a humanidade oscilou entre cooperação e conflito. A política nasce justamente como resposta a esse dilema estrutural: como viver juntos sem nos destruirmos?
Ao institucionalizar normas, autoridades e procedimentos, essa cria previsibilidade. Elemento essencial para qualquer forma de vida coletiva estável. Sem previsibilidade, não há confiança; sem confiança, não há sociedade.
A história é categórica. Sociedades que prescindem da mediação política não entram em harmonia espontânea; essas se fragmentam. A ausência de instituições, normas e canais de diálogo não elimina conflitos. Apenas os desloca para o terreno da violência. Fora da política, o que há não é liberdade plena, mas a lei do mais forte, frequentemente travestida de ordem natural.
Território do conflito civilizado
A política não existe para acabar com os conflitos, mas para organizá-los. Essa distinção é central. Conflitos são inerentes à vida social: diferentes interesses, visões de mundo, disputas por recursos, identidades e poder. A grande contribuição da política foi criar espaço onde essas tensões podem ser processadas sem destruição mútua.
Esse espaço não é neutro nem pacífico por natureza. Esse é regulado. Parlamentos, tribunais, eleições, partidos e a própria esfera pública funcionam como arenas institucionalizadas onde o dissenso pode se expressar sem romper o tecido social.
Trata-se de conquista civilizatória: substituir a lógica da eliminação pela lógica da disputa regulada.
Quando esse espaço é deslegitimado, atacado ou esvaziado, o que se perde não é apenas eficiência administrativa. Perde-se o próprio mecanismo que impede que divergências se convertam em ruptura social.
A radicalização sem mediação, o descrédito nas instituições e a recusa ao diálogo empurram a sociedade para formas mais primitivas de resolução de conflitos.
A política, nesse sentido, é tecnologia social de contenção da violência. E, ao mesmo tempo, de produção de legitimidade.
Da rua ao Estado: onde a vida acontece
É também pela política que problemas concretos ganham solução coletiva. A pavimentação da rua, o funcionamento do hospital, a qualidade da escola, a segurança no bairro. Tudo isso passa por decisões políticas, ainda que muitas vezes invisíveis no cotidiano.
A política conecta o local ao estrutural. Decisões tomadas em esferas superiores — como orçamento, legislação e prioridades governamentais — repercutem diretamente na vida concreta das pessoas. Não há neutralidade: toda escolha pública implica alocação de recursos escassos e definição de quem ganha, quem perde e quem espera.
A ideia de que é possível viver “fora da política” é, portanto, ilusão confortável e perigosa. Mesmo a negação da política já é, em si, posição política. Frequentemente funcional à manutenção de desigualdades, pois enfraquece a capacidade coletiva de reivindicação e controle.
A gestão de políticas públicas é o instrumento pelo qual sociedades tentam reduzir desigualdades, garantir direitos e organizar prioridades. Sem isso, o acesso a bens básicos deixa de ser direito e passa a ser privilégio, mediado por poder econômico ou força social.
Pacto que sustenta a sociedade
O que chamamos de Estado de Direito nada mais é do que um pacto político institucionalizado. Um acordo — sempre incompleto e tensionado — de que conflitos serão resolvidos por regras comuns, e não por imposição violenta.
Esse pacto se sustenta em pilares como legalidade, legitimidade e participação. Não basta que as regras existam; é preciso que sejam reconhecidas como válidas e aplicadas de forma minimamente justa. Quando esse equilíbrio se rompe, abre-se espaço para arbitrariedades, exceções permanentes e erosão institucional.
A coesão social depende dessa arquitetura invisível. Quando essa funciona, a política é quase imperceptível. E isso é sinal de sucesso. Quando falha, torna-se evidente em sua forma mais crua: crise, instabilidade e desconfiança generalizada.
A “dilaceração” dos povos não ocorre apenas em guerras declaradas. Essa pode se manifestar de forma lenta: polarização extrema, ruptura de consensos mínimos, descrédito generalizado e incapacidade de ação coletiva. Tudo isso são sintomas de pacto político em erosão.
Crise de credibilidade, não de necessidade
É verdade que a política enfrenta crise profunda de confiança. Escândalos, corrupção, ineficiência e distanciamento entre representantes e representados corroem sua legitimidade. Em muitos casos, a política institucional parece incapaz de responder à velocidade e à complexidade dos problemas contemporâneos.
Mas é crucial distinguir: trata-se de crise da prática política, não da sua necessidade. A insatisfação com a política não elimina a política. Apenas a desloca para formas menos visíveis, menos reguladas e, muitas vezes, menos democráticas.
Desacreditar a política como um todo é, paradoxalmente, enfraquecer o único instrumento capaz de reformá-la. O vazio deixado pela política institucional tende a ser ocupado por soluções autoritárias, personalistas ou tecnocráticas, que prometem eficiência à custa de participação e controle social.
A resposta à má política não é a sua negação, mas a sua qualificação: mais transparência, mais participação, mais responsabilidade pública e mais capacidade de entrega.
Entre o caos e a construção
A política é o espaço onde sociedades escolhem entre conflito destrutivo e construção coletiva. Isso não garante justiça automaticamente, nem impede abusos por si só. Mas oferece o terreno onde esses problemas podem ser enfrentados sem que a sociedade se despedace.
É, em última instância, o campo onde se decide o futuro comum. Cada decisão política — por menor que pareça — contribui para moldar o tipo de sociedade que se constrói: mais inclusiva ou mais excludente, mais estável ou mais volátil, mais democrática ou mais autoritária.
Negá-la é abrir mão da única ferramenta capaz de transformar divergência em convivência. E isso tem custo histórico conhecido e reiterado ao longo do tempo.
Sem política, resta a guerra: explícita ou difusa, imediata ou gradual. Com essa, permanece ao menos a possibilidade de futuro comum.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
Últimas notícias
Reeleger Lula para preservar direitos e a democracia
16/3 - 11:13 |
Maioria dos brasileiros apoia o fim da escala 6×1; mostra Datafolha
16/3 - 10:44 |
Juventude brasileira pressiona por nova jornada de trabalho e apoia fim da escala 6×1
16/3 - 10:39 |
Revisão da vida toda: decisão do STF sepulta esperança de milhões de aposentados
13/3 - 11:27 |
Estudo do governo indica que modelo 5x2 já predomina no País; e jornada de 40h ganha força

